terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O meu pai faz 80 anos hoje. Oitenta anos. Hoje. O meu coração bate mais forte quando escrevo isto, penso nisto, quando reflito no tempo que foi passando. O meu pai faz anos hoje. 80 anos. Hoje. Quer dizer, mais logo, quando estivermos juntos. Os anos não se fazem quando chega a hora do nascimento. Na nossa casa, os anos sempre se fizeram na hora de cortar o bolo. Na hora em que o som da tua carrinha surgia à distância e estacionavas na nossa garagem. O meu coração saltava porque vinhas à hora do lanche comemorar o meu aniversário... E havia bolo de coco, feito pelas manas. A mãe também estava. Era tão bom, tão forte. Eu era tão feliz, vivia uma felicidade irracional, que nunca mais fui capaz de sentir na sua plenitude. Eu deixei de estar presente nos serões da nossa casa em Vila Nova de Tazem, depois que fui para Coimbra estudar, mas eles ainda estão tão presentes em mim. Dentro de mim. Sempre. “Foi aqui que te criaste”, dizias tu, às vezes, quando eu voltava para o meu lugar naquele cadeirão. Tantas crianças que aquele sofá viu crescer, mas para mim será sempre o cadeirão onde eu fui ganhando corpo, contigo do lado esquerdo a ver televisão e a mãe, do lado direito, a fazer renda, com as pernas estendidas sobre a cadeira de pano. As rendas não tiveram continuidade depois que ela entrou no mundo espiritual, e também muito parou na tua vida. E na minha. Na de todos nós. Nada voltou a ser como antes, nem tu, nem eu. Já passaram 18 anos e eu nem dei conta. Estiveste mais só do que eu queria e eu estive mais só do que aquilo que tu querias. E não conseguimos preencher o vazio com a companhia um do outro. Por incapacidade, por sermos terrivelmente iguais, por não conseguirmos falar de vivências, muito menos de sentimentos. Nas pessoas que nos tornámos depois da existência dela, realço o teu sorriso, a tua gargalhada, o teu sentido de humor, a resposta pronta, inteligente. Creio que nunca terias conseguido mostrar essas tuas capacidades se a mãe estivesse cá. Às vezes a vida é assim. Sempre a dar-nos boas oportunidades. Tiveste todo este tempo ao teu dispor para te revelares, nos defeitos e nas virtudes. És menos para a ação e mais para a emoção, para a liberdade. E eu sou como tu. E só quem nos conhece, sabe o que isto quer dizer. E fazes 80 anos, hoje, quando cortarmos o bolo.

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