quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A praça para onde vim parar

Trabalho no mesmo jornal há quase onze anos. Neste tempo, a minha secretária mudou de lugar uma vez e já tive um computador novo, maravilhoso, de facto.
De resto, tudo se manteve, até a paisagem do lado de fora da janela. Árvores, cujas folhas vão mudando de tonalidade à medida que os meses passam, estão intactas. Vêem-se as janelas superiores dos prédios mesmo em frente e ainda um poste de electricidade. Não vejo, mas imagino – porque sei que lá está – uma praça velha em calçada, uma Igreja de onde sai em procissão Nossa Senhora da Piedade, a padroeira do concelho onde estou, cujo calendário de festas determina viagens de emigrantes. Não raro se veem os olhos húmidos de quem vem e olha o andor magistral da mãe com o filho ao colo, já morto. Tudo naquele andor, a dor da perda, a dor da saudade, a dor maternal de quem acaba de perder o seu filho muito amado.
Da rua, ouve-se o ruído dos carros, os telefonemas do sector de desenvolvimento social da Câmara Municipal, os carimbos dos correios e o folhear dos livros à venda. O choro impaciente das crianças à espera de vez, as máquinas de café a deitar líquido castanho para manter abertos os olhos dos trabalhadores, a conversa dos taxistas à espera do cliente que tarda, a inquietude do ourives que não vende, o pequeno mercado - com a vendedora a fazer renda - que às vezes abre outras não, o talho onde nunca entrei. Apesar de tantos anos volvidos, ainda se sente o contentamento do homem da leitaria que certa vez viu a sorte. Vinha alegre e deu-lhe para a mão alguns milhares de contos do Totoloto.
Os cheiros às vezes são de terra molhada, outros da secura que se levanta do chão, dos ácidos expelidos da casa-de-banho pública onde fui uma vez e me arrependi. Bom, bom era o alo dos velhos petiscos que se fritavam no óleo usado do “Ri-Te, Ri-Te”. Local sujo, mal frequentado, mas onde comia por 400 escudos arroz, ovo estrelado, costeleta, nos meus primeiros anos de Trevim. A casa abriu nas mãos de gente que nem uma cerveja sabia tirar e nos primeiros dias, claro, eram a troça dos clientes. Como só respondiam, “Ri-te, Ri-te”, lá ficou o nome. Hoje saiu toda a imundice e lá está uma pastelaria, com pão quente, sopas, hambúrgueres, jornais, decoração. É fina, mas não consegue ser tão chic como a casa de chá em frente. Uma verdadeira sala de visitas, onde se vendem infusões raras e se comem doces caseiros, quishes e outras novidades que esta praça nunca poderia imaginar que um dia iria presenciar. Sim, antes de ser o que hoje é, aquele local era impróprio para uma senhora entrar. Não chegava a ser taberna, era muito menos que isso.
Em relação ao tacto, só referencio aqueles cinco euros que pude um dia apanhar do chão e que bem me souberam nas mãos. Ainda olhei para os lados, a ver se alguém me vigiava, mas não. Podia fugir à vontade com a minha pequena fortuna, com a qual ainda paguei uns cafés aos colegas. Um acto raro, mas, enfim, era dia de festa!
Por isso, dos cinco sentidos é o paladar que mais se refastela nesta praça para onde vim parar. Graças ao investimento alheio, se não, creio que pouco se salvava. Talvez a Igreja, que é lugar santo.

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