sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O pequeno maestro

Era a hora do conto em casa da avó Maria. Sempre que a Joana, a Rita e a Raquel passavam as férias na casa de campo, na companhia da avó, o pôr-do-sol era a altura escolhida para ouvir as mil e uma histórias que ela sabia de cor.
Depois das três meninas brincarem à apanhada entre o arvoredo da quinta, prepararam-se sentadinhas no balcão das escadas de pedra da casa para ouvirem a voz melodiosa da mulher de 70 anos, que a vida enrugou, mas que dotou também de ternura e paciência. Agora na reforma de uma vida na cidade, não lhe faltava tempo para dedicar aos netos a atenção que não teve a oportunidade de dar aos filhos.
A voz naquele dia estava de tal forma melodiosa e suave (provavelmente açucarada com o delicioso doce de abóbora que acabara de fazer) que as crianças até comentaram que a avó parecia o violino que ouviram durante a tarde e que tinham combinado, entre as três, aventurarem-se, no dia seguinte, a procurar os dedos que tocavam semelhante música.
A avó aproveitou a deixa e começou a contar uma história de um violino, de um violino gigante e mágico.
Os olhitos das três crianças arregalaram-se ao imaginar um violino muito maior do que a sua estatura e a pesar três vezes mais. Mas o que mais as impressionou foi o facto de ser um violino… falador.
"Pedro tinha quatro anos quando recebeu o violino para brincar com ele. Era em tudo semelhante aos outros, só era muito maior. A criança ficou feliz por ter algo diferente para mostrar aos amigos e também porque, assim, poderia aprender música, um sonho que acalentava desde que nascera", contava Maria.
O quarto do Pedro ficou ainda mais enriquecido. O espaço já estava enfeitado com bonecos de pelúcia, jogos para o computador, aparelhagem, televisão, tudo. Agora, no entanto, tinha algo muito mais especial do que o resto. Tinha um violino gigante.
O tio Osório, que lho oferecera, só conseguiu encontrar tal raridade em Inglaterra, o que para Pedro ainda era mais emocionante. Os pais deste não acharam grande utilidade àquele grande objecto, mas assentiram mesmo assim em colocá-lo no quarto do pequeno.
"Certa noite, Pedro dormia tranquilamente quando começou a ouvir uma voz a chamar por ele. Quanto mais ouvia, mais se embalava no sono e sonhava com paisagens rurais, com jardins, borboletas, flores campestres, passarinhos, um cenário onde gostaria mais de viver do que na cidade que não lhe possibilitava andar ao ar livre".
Entretanto, o violino não só ganha voz, como abre os braços e estende as pernas. Sem acordar Pedro, pega nele ao colo, coloca-o nas suas costas e lança-se pela janela a voar. Foi só com o vento a bater-lhe no rosto que Pedro acordou do sonho bom que estava a ter. Atrapalhou-se de tal forma quando reparou que estava a sobrevoar o céu que se agarrou às cordas do violino para não cair sozinho na noite escura.
"Estás bem?", perguntou o violino. Pedro não conseguia falar, só olhava fascinado para tudo. Entrou no Carnegie Hall, em Nova Iorque, no Royal Albert Hall, em Inglaterra, no Opera, em Paris, no Teatro Nacional de São Carlos, em Portugal e em tantos outros locais de elite, em menos de vinte minutos.
A última imagem que o violino lhe mostrou foi a de um maestro com duas batutas a orientar uma orquestra de passarinhos. "Este és tu no futuro. Vais ser um maestro de grandes óperas, vais encher as salas que viste esta noite comigo, mas o teu passatempo favorito vai ser pegar nas tuas batutas e andares pelo campo, perto das coisas simples da vida a compor as tuas músicas".
A viagem tinha terminado. Pedro e o violino regressaram ao quarto e a criança acordou de manhã cheia de energia. Tinha a certeza que seria músico um dia...
"Avó, achas que é ele que toca o violino que nós ouvimos hoje à tarde", perguntou a Joana, entusiasmada.
"Quem sabe, querida", respondeu Maria, com um sorrisinho maroto. Ela sabia que não podia ser, mas ficava feliz por as suas netas estarem a viver uma infância cheia de fantasias.

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