sexta-feira, 22 de outubro de 2010

AUSCHWITZ, local esquecido pelo sol


"Camaratas" em Birkenau. Em cada camada do beliche tinham de caber 10 pessoas


Latrinas em Auschwitz-Birkenau. A sua limpeza era considerada um trabalho leve, porque os alemães mantinham-se longe do cheiro e das possíveis doenças


AUSCHWITZ, local esquecido pelo sol

Auschwitz não tem alma. Só lama, frio e imagens grotescas para quem conhece as palavras liberdade e conforto. No sul da Polónia, o local que foi durante a II Guerra Mundial (1939-1944) sítio de tortura, fome e morte de judeus, ciganos, homossexuais, presos de guerra, intelectuais polacos, tornou-se num museu para onde rumam milhares de visitantes por dia. Organizam-se os grupos, os guias (o museu tem mais de 200, entre eles um português), preparam-se os auscultadores, o rádio de comunicação e começam as nossas três horas de visita, no dia 29 de setembro.
Os rostos ganham perplexidade à medida que a realidade das pessoas deportadas para aquele campo de concentração começa a ser explicada e as imagens entram pelos nossos olhos adentro. Foram transportados para o campo judeus vindos da Hungria, França, Holanda, Grécia, Eslováquia, Bélgica, Áustria, Alemanha, Jugoslávia, Itália, Noruega. Relatos de sobreviventes dos campos de concentração nazis contam que, à medida que os dias avançavam, os prisioneiros perdiam a noção de identidade como seres humanos. Para começar, a viagem era, no mínimo, traumatizante. Da casa, de onde eram arrancados de forma brutal e com pouco tempo para fazerem as malas, os "escolhidos" eram levados para comboios de transporte de gado. Os vagões não eram abertos, nem era distribuída água ou comida. As viagens podiam demorar horas ou vários dias. Quem sobrevivesse e entrasse no campo ficava logo despojado de toda a documentação, roupa e bagagem, passando a ser identificado apenas por um número gravado no corpo. Também lhes era rapado o cabelo. Vestiam depois umas calças e uma camisa às riscas e assim tinham de enfrentar a neve. Muitos trabalhadores eram sujeitos a trabalhos esforçados, laborando em fábricas de derivados de petróleo, armas, ou construindo outros campos (como o caso de Birkenau, a três quilómetros do campo mãe de Auschwitz). Na generalidade, todos os deportados iam perdendo o brilho dos olhos, o corpo enfraquecia pelo esforço do trabalho, pela fome, pela doença, pelos maus-tratos e também pelas lutas entre si por caldo ou mais um pouco de pão. A comida, além de ser insuficiente, era sempre do mesmo tipo e pouco calórica.
Sessenta e seis anos depois dos acontecimentos, ainda são conservadas as "provas do crime". Os edifícios contêm hoje objetos pessoais dos prisioneiros que não foram roubados nem destruídos: óculos, malas (ainda com o nome das pessoas), sapatos, próteses, alguma roupa de criança. As jóias não chegaram aos dias de hoje...Uma sala conserva ainda duas toneladas de cabelo que, segundo foi dito, era destinado a fábricas de produção de têxteis. Uma vitrine mostra tranças ainda por desfazer. Entre os blocos 10 e 11 encontra-se o "muro da morte", onde eram executados os desobedientes. O bloco 11 é difícil de visitar. Na cave foram construídas as celas para aqueles que eram predestinados à morte por asfixia, fome ou falta de luz. Na cela por morte de fome, está a vela que o papa João Paulo II, de origem polaca, ofereceu em memória do padre católico Maximillian Kolbe que foi prisioneiro em Auschwitz, voluntariando-se para morrer em lugar de outro prisioneiro. O padre foi canonizado pelo papa em 1982, na presença de Franciszek Gajowniczek, o homem cujo lugar o padre tomou e que sobreviveu aos horrores do campo.
Em Auschwitz, a câmara de gás e o crematório são os últimos lugares a visitar. Pede-se silêncio. A câmara de gás parece demasiado pequena para ter albergado centenas de pessoas que morreram ao mesmo tempo por ação do gás Zyklon B. Um espaço onde se concentraram todas as expetativas em termos de visita e, naquele momento, não há tempo para definir os sentimentos. Confundem-se. A visita é rápida, saímos. Mas as imagens e a incompreensão hão-de ficar, bem como uma maior valorização da vida.

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