sexta-feira, 16 de julho de 2010

Hoje, conto-vos um conto

O sábio da floresta

As nuvens do céu e a linha do firmamento estavam sempre no pensamento de Tiago, que era o mais distraído da turma do 5ºD. Encostado a uma das janelas da sala de aula, passava horas a sonhar acordado com possíveis aventuras com os amigos, desde cambalhotas em colchões de algodão a corridas de bicicleta no espaço com fatos de astronauta. Como se costuma dizer, Tiago estava sempre "na lua" e os professores alertavam-no para esse comportamento. Mas, por muito que se esforçasse por olhar para o quadro e copiar o que lá estava escrito, sem se dar por isso, já via as letras a saltarem e a dançarem com ele um corridinho que o faziam sair dali para a sombra de um coqueiro, ao som de merengue na República Dominicana.
Era assim a cabeça de Tiago. Cheia, plena de imaginação, de sítios a explorar, de desejos por realizar. Claro que a mãe Ermelinda conhecia esta característica da personalidade de Tiago e já dizia para si própria e para os vizinhos: "Não é defeito, é feitio".
Num feriado, Tiago aproveitou uma saída rápida da mãe para ir conhecer, finalmente, o bosque que rodeava a sua casa e no qual já tinha imaginado mil e uma figuras estranhas, bizarras, com quem queria até travar amizade. Chegou ao bosque devagar, mas como não tinha muito tempo, ficou-se pela entrada, de onde só pôde ver algumas borboletas, uma ou outra abelha, nada de muito assustador, nem interessante. Regressou a casa desiludido, mas disposto a entrar mais a fundo no arvoredo, assim que tivesse outra oportunidade.
Não pôde esperar pela melhor ocasião. Desde que chegou a casa que uma sensação forte o empurrava de novo para a floresta. Era uma voz interior, uma espécie de chamamento que o impelia a regressar. Mesmo em pijama, só com um casaco de fato de treino, saiu de casa pelo telhado e embrenhou-se na escuridão. Não tinha medo. Estava muito curioso com as aventuras que podia estar prestes a viver. O som que o chamava tornava-se cada vez mais forte e quanto mais andava, mais espessa ficava a floresta, mais intensos os cheiros e os grunhidos dos animais. Apesar de só conseguir ver aquilo que a luz da lua lhe permitia, estava encantado com toda a envolvência da paisagem. Não sabia para onde estava a ser guiado por algo invisível, mas estava a gostar. Até que, sem saber como, foi ter junto a um castanheiro centenário. Era uma árvore enorme, com várias crateras, que parecia servirem de toca a alguns animais. Cheio de curiosidade, meteu a mão numa dessas aberturas e tocou numa pequena bola, que parecia um berlinde. Agarrou-o na mão com força e tirou-o.
Vendo-se livre de cem anos de escravidão, o berlinde começou aos saltos, rodeando o corpo e a cabeça de Tiago de tal forma que este ficou completamente baralhado. Quando levantou a cabeça, deparou com um ser verde, com antenas, orelhas enormes e pontiagudas, olhos miudinhos e uma boca completamente desdentada. Era um ser estranho, mas um ser que ele queria conhecer.
- Olá Tiago, eu sei o teu nome, porque eu vejo tudo o que se passa no mundo, sei que sonhas acordado, conheço a tua família e os teus amigos. Puseram-me aqui porque sabia todos os segredos da humanidade e consideravam-me perigoso. Tu que me libertaste, podes-me fazer uma pergunta, mas só uma, sobre o mundo que nos rodeia. Eu sou um sábio...
Tiago olhou para a figura e pensou em mil e uma questões possíveis: quantas estrelas há no céu, o que há além das nuvens, quantos cabelos os seres humanos têm na cabeça, mas tinha de ser esperto para fazer uma pergunta, cuja resposta lhe fosse útil para a sua vida. Depois de pensar muito, decidiu-se por uma.
- Sábio, o que é que eu venho fazer à terra?
- Como, o que vens fazer à terra?
- Sim, o que venho fazer à terra!
O sábio tossiu, engasgou-se, já não era verde, tinha ficado roxo. Um menino tão pequeno tinha-lhe feito uma pergunta à qual ele não sabia responder. Ele não previa o futuro, só sabia o passado e o presente. Face ao silêncio do sábio, Tiago adiantou a conversa.
- Sabes, eu gostava de voar, mas não tenho asas. Gostava de viajar muito, mas não tenho idade, nem dinheiro. Depois, sou obrigado a ir à escola aprender, mas eu preferia aprender de outra maneira. Queria que falássemos sobre o Egipto e, num toque de mágica, entrássemos nas pirâmides e pudéssemos ver, tocar. Assim, não sou muito feliz - disse, entristecido.
O sábio, que tinha uma vez lido num livro que "o caminho se faz caminhando" disse ao menino que só ele próprio podia responder a essa questão, procurando, experimentando, vivendo com intensidade, descobrindo, a cada passo, o mais fundo do seu ser e o trajecto da sua própria felicidade.
Tiago não percebeu muito bem a resposta, mas talvez um dia compreendesse. Regressou a casa a pensar naquela figura tão pitoresca que ficou presa numa árvore tantos anos. O sábio, por seu lado, deixou-se ficar na floresta, para aprender ainda mais sobre a humanidade, porque, afinal, ainda tinha muito para conhecer, sobretudo sobre as crianças. Na sua oração, agradeceu ao Tiago a libertação e a lição de vida.

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