sábado, 19 de junho de 2010

Saramago regressa à pátria


Saramago,
Um homem muito à frente do seu tempo. Incompreendido, inconformado, insubmisso, manteve-se fiel à sua verdade. Uma verdade que procurou transpor para a sua escrita, provocando o leitor e levando-o a reflectir sobre a condição humana, a relação do homem com os poderes instituídos, nomeadamente o Estado e a Igreja Católica. E Deus, onde está Deus na obra de Saramago?
Deus é uma linha transversal a toda a sua obra, como se o ateu procurasse uma resposta para a transitoriedade da vida terrena. Como que esta vida não fosse suficiente, não o satisfizesse por completo. Chamou a Deus todos os nomes possíveis, mas provavelmente nunca nenhum ateu procurou/estudou/analisou tanto uma divindade como este homem serralheiro, dramaturgo, poeta, jornalista, escritor. Um homem ligado à terra, à sua terra natal e também à terra, àquela terra de onde nascem as árvores, que abraçava para sentir o seu pulsar.
Quase expulso da sua pátria pela sua escrita subversiva e atentatória da moral religiosa, católica e romana, nunca se vingou. Nem na hora da morte. Quis que todas as suas cinzas ficassem na sua terra mãe: Portugal. Saiu quase deserdado pelos Governo de Cavaco Silva e foi repatriado, depois de morto, com honras de Estado, com direito a dois dias de luto nacional. Um luto decretado pela mesma pessoa que o proibiu em 1991 de participar com o seu livro "Evangelho Segundo Jesus Cristo" num concurso literário internacional. Uma vergonha, se pensarmos que essa mesma pessoa, duas décadas depois, aprova a lei que permite o casamento entre homossexuais. Então e agora, os católicos defensores da família e dos bons costumes, não pesaram na decisão? Será que a sua ausência nas cerimónias fúnebres de Saramago significam coerência, ou falta de humildade? Perante um corpo inofensivo, já estéril e inútil, sem vida, Cavaco Silva não foi capaz de fazer uma vénia pelo tamanho da sua dignidade enquanto ser humano? Saramago demonstrou que Portugal nunca saiu do seu coração e, no entanto, era o governo espanhol que o tinha no peito. Um funeral de Estado sem o chefe máximo desse Estado presente é como uma abóbora do tamanho de uma azeitona: absolutamente anormal.
Neste texto, sinto um nervoso miudinho e um desejo de inovar nesta arte tão difícil de alinhar as letras umas atrás das outras, com sentido. Um sentido para mim e para os outros. Saramago foi exímio nessa tarefa e gostei de ter sido contemporânea de um homem inovador, que ombreia com Eça de Queirós, Camões e Fernando Pessoa no seu legado literário.

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