sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A precisar

No meio de tantos trabalhos que requerem objectividade e vocabulário directo e incisivo, tenho de fazer uma pausa para ver se a dor de cabeça se vai embora.
Ficam, desde já, a saber que este tipo de escrita intimista ajuda a espairecer. Mas não é este o assunto que vos trago hoje e que andei a adiar durante dias.
Não é cómico e fala até de solidão e de erros. Está, por isso, na linha dos anteriores artigos.
Se me questionassem sobre se estou arrependida de algo que tenha feito ou deixado de fazer, digo que me arrependi de muitas que não fiz e, pelo menos uma que tenha feito. Estudar demasiado!
Até dói quando penso que, no ensino secundário, me levantava às 6:30 da manhã para apanhar o autocarro às 7:05, me lavava à gato, comia uma maçã, cujo caroço colocava atrás da paragem do autocarro. No final da semana, havia uma filinha de caroços, para quem os quisesse contar. Ainda era de noite quando saía de casa. Frio, acho que não tinha, embora o Inverno fosse extremamente rigoroso. Sei que tinha sempre as mãos geladas, cheias de frieiras. As aulas começavam às 8:00 e estava sempre na fila da frente. Anotava tudo o que os professores diziam, passava os intervalos na biblioteca, ou na reprografia. Menos aquele intervalo em que ia ao bar comprar um bolo, a meio da manhã. Era magra que nem um esqueleto. Tinha os meus 47 quilos, que se mantiveram até aos 18. Depois de um dia inteiro de aulas, chegava a casa às 19:00, lanchava e depois ia logo estudar. A minha mãe fazia o jantar, eu comia, e depois ia estudar até à meia-noite. Tivesse teste ou não, trabalhos de casa ou não, esta era a minha vida, olhar para os livros, muitas vezes sem ver nada. Fui bem sucedida em termos de notas e de média para entrar na universidade, atingi os meus objectivos a esse nível, mas descurei outras facetas: os outros, a amizade, a família...
Tenho reflectido muitas vezes sobre se a atitude de excessivo estudo foi ou não um erro. Durante algum tempo pensei que não. Desculpava-me sempre com aquela história de que, naquela altura pensava que estava fazer o melhor para mim. Contudo, as conversas que não tive, a companhia que não proporcionei aos outros fazem-me reflectir.
Esta reflexão vem a propósito de uma experiência vivida num destes dias de Outono em que eu estava na cozinha da minha casa da Lousã e estava a precisar de companhia. Durante o jantar, tive-a. Depois, a minha amiga Verónica levantou-se, dizendo que tinha de ir continuar o trabalho que estava a fazer. Aquela atitude fez-me regressar aos anos em que eu tomei a mesma atitude, deixando pais e irmãos à sua sorte, muitas vezes só consigo próprios.
Depois de ver que o meu esforço não teve as consequências monetárias que eu gostaria, questiono-me se verdadeiramente terá sido a melhor opção. E, hoje, creio que não foi.
Podem dizer: se calhar não conseguirias entrar no curso que pretendias! Sim, mas, como eu queria Jornalismo, podia ter entrado numa Escola Superior para o curso de Comunicação e o resultado era, que vos digo, o mesmo.

Posto isto, têm alguma solução para mim?

Seguidores