domingo, 8 de novembro de 2009

Muros

Os 20 anos da queda do Muro de Berlim sugerem-me um pequeno murinho, construído em tempos de cólera no pátio traseiro da casa de Vila Nova de Tazem, que era um espaço que dividíamos com os meus tios. Maria José, irmã da minha mãe, e marido, Joaquim, ex-sapateiro.
Como nota introdutória, apenas explicar que a guerra entre nações pode ter a sua génese no interior de uma só pessoa. Engraçado, na altura em que o muro no pátio da casa onde vivi foi erguido, o ódio germinava em mais de uma pessoa. Não sei as causas que levaram o meu tio a pegar em tijolos e começar a fazer um carreiro para "dividir" territórios. As relações não eram as melhores, de facto, e volta e meia as duas irmãs chateavam-se por causa de pormenores. Mas com o meu tio, a coisa foi mais feia, tendo até ele dito que nunca mais entraria em minha casa. Promessa que quebrou às seis da manhã do dia 1 de Novembro de 1999 que, ouvindo os gritos, se dignou entrar pela porta de madeira e vir cumprimentar-nos.
Lembro o meu ar de espanto a olhar os tijolos, sem perceber nada. Não sei se, timidamente, lhe terei dito "bom dia" ou "boa tarde", ou se pura e simplesmente não o cumprimentei. (A minha antipatia e tendência para poucas falas vem de longe) Ele não morria de amores pelas sobrinhas por afinidade, mas a minha tia, apesar das divergências, via em nós os filhos que nunca teve.
Aquele pequeno muro, patético, no meio do pátio, só serviu para estorvar. Ao longo dos anos, as ervas daninhas começaram a crescer pelos tijolos e hoje, com a casa desabitada - os meus tios já partiram - chegam a atingir quase dois metros de altura.
Na realidade, quando as pazes se fizeram com a minha tia - mulher sofrida que não tinha a quem confessar as ofensas de que era vítima por parte do marido - a septuagenária tinha dificuldades em passar por aquele obstáculo. Visitar a irmã (minha mãe) adoentada ou ver-nos quando íamos de fim-de-semana a casa, vindas da faculdade, era das suas poucas motivações. As nossas alegrias eram as suas. Apesar de ter uma preferenciazinha pela minha irmã Sofia - por mérito dela e demérito meu -, conseguimos entender-nos (e creio que ela me passou a valorizar mais) quando esteve internada em Coimbra, na nefrologia e eu a ia ver. Exorcizei alguns dos meus demónios antigos em relação a ela (não esqueço um dia em que ela me foi oferecer uma colcha para o meu enxoval e ma foi pedir depois de uma zanga com a minha mãe. O que fiz eu? Entreguei-lha, claro! Aliás, eu não lhe tinha pedido nada).
Estas são mesquinhices do nosso quotidiano. Quando, no fim da sua vida, a via, de cabelo grisalho - que se confundia com os lençóis brancos dos HUC - com a barriga inchadíssima, as pernas negras, sem puderem dar um passo, a dizer-me para ir buscar um vestido dela ao guarda-fatos, em delírio, questionei-me se teriam valido a pena todos os problemas que dividiram as duas famílias, as preocupações com as heranças, o dinheiro. Valeu a pena? Eu não tenho resposta para esta questão. Pela minha parte, sou sincera. As preocupações criaram-lhe rugas. Mas o facto de ela ser poupada, trouxe-me alguma felicidade. Sempre que ela desembrulhava um lenço e saía de lá, por magia, uma nota de cinco contos, os meus olhos cintilavam. Eu ainda dizia que não queria, mas estava ansiosa para fortalecer o meu frágil pecúlio.
Ao escrever estas memórias ocorre-me um pensamento muito particular, que nunca tinha passado pela minha cabeça. Se um dia acabar numa cama de hospital, morro como vivi: de uma maneira simples. Mas mais rica: com a aprendizagem do sofrimento provocado por uma doença.


Aos meus poucos leitores fiéis, prometo que o próximo post será cómico. Acreditam? Eu nem por isso.

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