domingo, 18 de outubro de 2009

Os meus pais




Às vezes fala-se de África como sendo um vício difícil de explicar. Quem vive neste continente, ou emigrou para lá, não consegue deixar de recordar os tempos felizes que questões políticas roubaram aos portugueses e, de certa forma, também aos africanos.
Deixando de lado o problema do racismo (ou a ideia de que os brancos tratavam mal os negros, é algo de que não tenho provas...), quero apenas explicar que ultimamente tenho sentido um chamamento inexplicável para descobrir África, as suas riquezas e cultura, mas sobretudo as vivências dos portugueses. Acho que, de alguma maneira, estou a tentar descobrir o passado dos meus pais que, como muitos, rumaram a Angola em busca de uma vida melhor. Encontraram-na e foram forçados a abandoná-la. São retornados. No fundo, sei que estou à procura de saber o porquê de determinados comportamentos e também a razão da minha infância ter sido como foi. Os meus pais conseguiram ter uma vida estável em Angola. O meu pai era condutor dos autocarros (machimbonbos), a minha mãe, doméstica. Os meus quatro irmãos mais velhos têm fotos em criança que mostram o quanto estavam bem vestidos, sobretudo a minha irmã Mizé que usava umas roupinhas muito engraçadas, cheias de folhos. Eu já não tive isso: nem álbum fotográfico, nem vestuário bonito. Mas não fui a única: a minha irmã do meio acompanha-me nesta realidade. Os meus pais viviam nuns anexos e alugavam uma casa a um casal de Aveiro, com quem mantiveram uma amizade genuína até hoje, embora sejam de religiões diferentes.
Sabem, depois de virem de África, a vida dos meus pais mudou radicalmente, sobretudo porque o meu pai tentou a sua sorte na Venezuela e teve um acidente de trabalho que o condenou a uma reforma precoce por invalidez. Não foi o facto da abundância ter dado lugar à escassez quando abandonaram África (ou África os abandonou a eles), mas abriu caminho ao acidente de trabalho que, sabe-se lá, poderia ter sido evitado (ou não). Depois de regressar a Portugal e de ter sido operado (esta parte não sei bem, porque foram acontecimentos ocorridos antes de eu nascer e hoje em dia não se fala deles) dedicou-se à vida do campo. Entretanto, a minha mãe engravida uma vez -nasce a minha irmã Sofia - e outra, nasço eu. É normal que chore, não é? Sem dinheiro, com mais uma criança na barriga, eu provavelmente teria feito o mesmo.
Entretanto, os sonhos dos meus pais ficaram não sei onde. A televisão a cores, a carrinha para a agricultura, a máquina de lavar e outras mordomias foram conseguidas graças à ida (ironia do destino) dos meus irmãos mais velhos para o Zaire... As suas vidas davam obras de vários volumes, mas isso teriam de ser eles a escrever, que eu não sei da missa a metade.
Com este texto, que escrevo com o coração nas mãos, apenas quero prestar uma homenagem aos meus pais pelo que sofreram e tiveram de abandonar em Angola. (São comoventes os relatos de algumas pessoas que passaram pelo mesmo no livro "A Balada do Ultramar" que estou a ler). Quero sobretudo reconhecer a coragem que tiveram para criar os seus filhos, ultrapassando imensas dificuldades, alimentando-se mal, deixando para trás a remodelação tão desejada do andar superior da casa de Vila Nova de Tazem. Mesmo sem obra física, deixam um património humano inestimável: seis filhos. Eu, dificilmente, legarei tanto.

Um forte abraço amigo,
Maria João

(A foto é a minha mãe com dois filhos à espera...A imagem foi retirada do livro "Os Retornados" de Júlio Magalhães. Para mim é ela, mas não tenho a certeza absoluta. No meu coração é ela e a coincidência é impressionante. No meio de tantas famílias e multidões o fotógrafo captou a minha mãe. Mais de 30 anos mais tarde, eu, que ainda não tinha nascido na altura, tive acesso a esta foto por casualidade, ou não! Há coisas que nos vêem ter às mãos sem percebermos como.)

Seguidores