segunda-feira, 18 de maio de 2009

Caprichos

Subi,caprichosamente, aquelas escadas. Quais? As do serviço? As da minha casa de Vila Nova de Tazem, que acedem ao quarto de dormir e ao quarto de banho? As pequenas escadas da Casa do Povo, onde passei alguns anos quando era pequena? Exactamente, são estas.
Eram em pedra. Tinham pintinhas e, muitas vezes, ali me esperava uma das minhas educadoras, uma mulher extraordinária, que me marcou a infância. Gostava de mim, tratava-me como uma igual. Recordo ainda as suas mãos bondosas a tentarem tirar-me do colo da minha mãe, quando eu não queria ir para a creche. Foi ela que, certo dia, chamou a minha mãe para me ir ver a andar de triciclo. Uma mulher de grande sensibilidade que me comprou o boneco, que mais tarde baptizei de chorão, aquele com que passei a minha infância. Era a Dona Teresinha, que faleceu precocemente, deixando os filhos e eu própria envoltos em tristeza.
Aquelas escadas! O quanto a minha família sofria para me fazer chegar àquelas escadas... Depois de andar a pé, certamente cerca de três quilómetros, a minha mãe suspirava de alívio quando alcançava aquele edifício alto, no cimo da rua, bastante inclinada, para cúmulo. Até me arrepio ao pensar que, depois de tanto esforço, eu, rabeta, fazia inversão de marcha e corria furiosamente de regresso a casa! Parece que estou a ouvir a minha mãe gritar para alguém me agarrar. Entretanto, eu já estava ao fundo da rua... Depois não tinha alternativa, se não pegar-me ao colo e então lá aparecia aquela mulher bondosa tentar resgatar-me do quentinho.
Também a minha irmã se queixava das minhas birras e exigências, quando ia para a creche. Abandonava a sua infância para me levar, não sem antes aceder aos meus pedidos de ir para os baloiços ao pé da Igreja. Eu nem queria ouvir, quando ela dizia que tinhamos de ir. Era um verdadeiro martírio... Interessante que, depois de estar a brincar com os outros meninos, não queria vir embora. A mesma irmã, mais velha sete anos, tinha de inventar uma desculpa. Dizia-me que tinha sugus em casa. Bom, era o ódio, o horror, a choradeira sempre que chegava a casa e de sugus nem os invólucros.
Eu chorava... Que saudades desta menina exigente e caprichosa! Era mesmo eu?

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