terça-feira, 28 de abril de 2009

Partilha

Bebo chá, enquanto escrevo. Não que me inspire. Traz-me mais facilmente as recordações que quero registar.
Não tenho qualquer anel, mas se regressar 25 anos atrás, posso ver no meu dedo anelar da mão direita, um daqueles pequenos arames que vinham a atar os sacos plásticos transparentes das compras do supermercado "Pão de Milho", esse mesmo que eu deixei de frequentar, porque encontrava lá toda a gente, que só me perguntava se já casei ou onde estou a trabalhar. O arame está enroscado no dedo, olho e volto a olhar, para ver como fica. O meu sonho é ter anéis de verdade... Hoje tenho alguns, não muitos, mas mesmo assim, não são a minha predilecção.
Se me vir ao espelho, tenho uns pequenos brincos nas orelhas, quase invisíveis, que se mantêm meses sem serem mudados. Se voltasse à mesma época, podia ver cerejas vermelhas nas orelhas a fazer de conta que eram pendentes. Uma brincadeira que partilhava com as minhas irmãs. Era uma alegria, quando o saco das cerejas vinha cheio. Corríamos para a cozinha, comíamos de empreitada e, quando já satisfeitas, punhamos as cerejas nas orelhas e desfilavamos para os espelhos, a mirar-nos. Uma maravilha! Que imagem no espelho, que alegria, que sabor na boca. Nunca mais a minha saliva experimentou aquele adocicado e único paladar feito de sóis, ventos, chuvas e geadas. Tudo naquelas cerejas. A terra, o carinho com que foram cuidadas e apanhadas pelos nossos pais para nos fazerem felizes. Para poderem chegar e dizer: "Há cerejas!" e ouvir os passoas nas escadas de quem corre, pleno de entusiasmo, para uma coisa boa, para um aroma, para uma partilha, uma recordação.
Ao contrário das cerejas, que enchiam sacos, os morangos eram poucos. Mesmo com cor meia esverdeada, tinham um sabor verdadeiramente singular. Neste caso, a palavra partilha ganhava um significado mais intenso. As três manas cortavam os morangos aos bocadinhos, colocavam numa tigela, punham açúcar e aguardavam. Assim que havia molho, cada uma pegava na sua colher e comiamos as três, à vez. Cada uma tirava um bocadinho, não podiam ir dois na colher, senão eu refilava. O mesmo com o molho. Enchíamos as colheres com o molho, quando chegava a nossa vez. Quando uma dizia não querer mais, alguém tinha sorte e acabava com o resto. Normalmente, era eu essa felizarda! Hoje, olho para as mesas das almoçaradas em conjunto e comida não falta. Morangos também há, mas daqueles que enchiam a alma, nem pensar. Têm na cor e no tamanho o que lhes falta na essência.

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