sexta-feira, 17 de abril de 2009

O futuro

Caminhar pelo passado tem sido uma espécie de bálsamo para mim. Uma viagem muito característica das pessoas de signo caranguejo, como eu, que vivem agarrados às recordações com a mesma intensidade com que precisam de ar para respirar. Talvez esta afirmação pareça exagerada aos olhos de alguns, mas, no meu caso, ela encaixa na perfeição. Durante longos anos, olhei em frente e vi lugares, pessoas, frases, momentos idos, parados no tempo, dos quais me alimentei.
Hoje, olho em frente e já não vejo o passado. Vejo branco, uma folha pálida, onde vou escrevendo aos poucos a minha vida, feita de cada uma das horas dos dias que vou perpassando. Pela primeira vez, também, sinto que quero que seja eu a pegar na caneta e a escrever nessa folha. Mesmo que sejam umas garatujas, não irá muito além disso, pela inexperiência de escrever a minha vida pela minha mão. Está a ser uma experiência dolorosa, mas, ao mesmo tempo, provavelmente, a mais importante de todas. Hoje percebo melhor a relevância de viver o presente, preparando o futuro. Mas sem grandes ambições. Para mim, sendo também um pensamento recente, o melhor que um ser humano pode ambicionar é ter diariamente qualidade de vida, o que quer que seja que isso signifique. Cada um de nós terá a resposta. Se não se preocupar em saber que factores contribuem para a felicidade genuína, o ser humano passará pela vida sem nunca ter vivido na sua plenitude.
Os meus velhos deuses estão a ruir. Quer isto dizer que os meus antigos paradigmas de belo, inteligente, valioso ou importante estão a mudar. A obsessão em avaliar as pessoas pela sua profissão perseguia-me. Hoje sou amiga de uma pessoa, a quem perguntei, tão despropositadamente o que é que fazia, que o episódio ficou gravado na sua memória de forma tão negativa, que ainda hoje lembra. Sempre acalentei uma admiração muito grande pelas pessoas que prosseguiam os estudos, frequentando mestrados e doutoramentos. Também olhei, com um certo desdém, para pessoas de algumas profissões, desvalorizando-as. Hoje sei, a custo, que cada um vale pela sua sabedoria. Tirada da vida, dos livros, das meditações, pouco importa. Somos todos iguais, somos todos humanos.
Neste instante, quero escrever na pálida folha de papel que vou colocar as minhas energias a procurar-me a mim mesma, a definir a minha identidade, os meus gostos e as minhas limitações. Com clareza e sem complexos. Acrescento que o passado será sempre um tempo feliz (ou mais ou menos) que quero recordar e registar por escrito, mas que teve o seu tempo próprio. Já lá vai.





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