segunda-feira, 27 de abril de 2009

Coisas minhas

"Joaquim, quando eu morrer vais casar com aquela moça", disse a minha mãe ao meu pai quando ainda estava grávida de mim. Estava quase no fim do tempo e sentia-se verdadeiramente doente. Não queria deixar os seus filhos em más mãos e pensou numa boa mulher para cuidar deles. Hoje, todos nós sabemos que não foi necessário. Ao contrário de todas as expectativas, a minha mãe criou a sua filha mais nova, eu, até aos 22 anos.
Desde o meu nascimento que o medo da morte da pessoa que mais amava (e amo) me acompanhou. Desde sempre. Certo dia, na creche, quando os outros meninos brincavam na salinha, eu berrava descontroladamente no corredor, a chorar e a dizer que a minha mãe ia morrer, porque tinha comido muito creme torrado. Ela o dissera e a minha mente, pequena ainda, absorveu aquelas palavras como punhaladas. Recordo duas educadoras que me tentaram acalmar, mas é a sensação de desespero que lembro com mais nitidez.
Cresci atemorizada pelo momento em que alguém me dissesse a notícia, pensava na minha reacção, tentava prever as consequências para a minha vida. Hoje sei que, por muito que especulasse, nunca chegaria a adivinhar, na sua crueza, tudo o que sentiria após o desaparecimento daquela mulher que eu conheci doente, mas que me amou como foi capaz e me deu tudo aquilo que pensava que era essencial para mim. Deu-me amor, deu-me carinho, roupa e comida, mas não conseguiu contribuir para o meu amor próprio. Dar-me os parabéns pelas minhas notas não era suficiente para mim. Eu gostava que ela me aceitasse como sou: com as pernas tortas, tímida... Também gostava que nunca me tivesse envergonhado em frente às nossas visitas, dizendo que eu falava pouco. Sentia-me humilhada. Apesar de a acompanhar nas idas à missa, nas tardes de domingo, em que ela fazia renda e eu estudava na "sala de ver televisão", sentadas no mesmo sofá, juntinhas, o nosso diálogo era pouco.
Ela não conhecia as minhas preocupações, nem anseios. Neste caso, não sei de quem é a culpa. Agora, pouco importa. Poucos meses antes de morrer, a minha mãe fez-me um pedido fatal: "Conta-me coisas tuas!!!".
Não consegui dizer uma única palavra. Tanto que ficou por partilhar e a falta que tu me fazes, MÃE.

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