domingo, 22 de fevereiro de 2009

O relógio

Depois de uma noite mal dormida, levanto-me e olho pela janela. Estava sol! Menos mal, pensei eu. Desço e encontro uma mulher sentada a costurar, de casaco vermelho, com um gato aninhado ao cimo das costas. Era a minha irmã mais velha, que me conta aquela "aventura", que se repete quase diariamente. Um jovem passou quase uma hora a olhar para ela pela janela. Ela dizia adeus, mas ele não se ia embora. Um homem novo que as circunstâncias da vida tornaram aos olhos de todos um louco, andava pelas ruas como um alienado, sempre com as mesmas roupas, imundo. Um pobre diabo, mas que não fazia mal a ninguém! Um dia vira-o descalço em cima do alcatrão quente, sem se magoar. As suas pernas e pés estavam tão vermelhos e as veias tão grossas que durante algum tempo pensei como seria possível aguentar, com um calor tórrido, os pés a caminhar sobre o asfalto. Mais tarde percebi que o cérebro lhe tinha retirado a possibilidade de sentir...
Naquela manhã pouco fiz nos meus trabalhos de casa. As aulas na escola primária começavam às 13:15 e eu, mais uma vez, não fiz mais nada se não chatear aquela irmã para me ir fazer o almoço. Era sempre o mesmo. Frigideira ao lume com azeite e alho, um resto de batatas cozidas que tinham sobrado do dia anterior, com um ovo mexido por cima. Eu gostava daquela comida. A merenda para os meus intervalos já estava pronta. O pão com manteiga para o primeiro estava na sacola e a Mizé já tinha pegado numa vara e retirado uma laranja da árvore do quintal da frente. Nem sempre era sumarenta, aliás a maior parte das vezes sem sequer tinha um pingo de sumo, mas eu comia na mesma. Naqueles intervalos, não raras vezes escondia-me dos colegas para comer. Mas não era a única. Agora que olho para trás, decerto que teria colegas que nada levavam. Apesar desses, não deixava de olhar para as minha amigas que todos os dias comiam iogurtes. Uma colega em particular, a Sofia, levava diariamente um iogurte Ucal, que eu invejava. Era uma rapariga vaidosa, que andava já de salto alto e punha baton nos lábios. Bonita! Certa vez, entrou na Igreja para ir à missa e pensei para comigo como seria ela em adulta. Ela não chegou ao estado adulto. Um brutal acidente de viação a caminho da Suiça roubou-nos a sua companhia, o seu sorriso, o seu olhar negro. A mãe morrera também. Ficaram o pai e o irmão carregados de preto e de uma tristeza perene. Não a esqueço. Um dia foi a minha casa, desci as escadas com um fato vermelho e sei que ela disse que eu estava bonita. Ela levou um bebé chorão para brincarmos. O boneco tinha uma particularidade: uma pilinha. Eu nunca tinha visto pilinhas nos bonecos. Só nos bebezinhos e acho que de raspão.
A coisa marcou-me de tal maneira que, mal a Sofia se foi embora, disse à minha mãe: "o chorão da Sofia tinha um pirilau"! Indescritível a gargalhada que se seguiu. A história foi contada e recontada para minha infelicidade. Não direi que toda a minha terra soube, mas as pessoas da rua onde eu vivia (que tem mais de um quilómetro) tomaram conhecimento daquele pormenor íntimo do boneco inofensivo da minha amiga.
Estava a chegar a hora de ir para a escola. Também naquele dia fui para o exterior do pátio à espera da minha boleia. A senhora que trabalhava nos correios tinha dois filhos a estudar: um na minha turma, o Marco, e outro na turma da minha irmã Sofia, o Bruno. A Sofia e o Bruno tinham aulas de manhã, eu e o Marco à tarde. A senhora dava-me boleia e, assim que nos deixava na escola, ao filho e a mim, apanhava de regresso o outro filho e a minha irmã. Neste encontro rápido e efémero com esta irmã, mais velha que eu um ano, mas que a inteligência permitiu que fizesse dois anos escolares em apenas um, ela tirava rapidamente o seu relógio e passava-mo. Só tínhamos um, mas éramos felizes.

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