sábado, 7 de fevereiro de 2009

A apanha da batata

A ansiedade pelas férias de Verão em Aveiro começava meses antes da viagem de comboio। Na apanha da batata, actividade que eu não aceitava de bom grado por causa do imenso calor, vinha de vez em quando uma das minhas irmãs mostrar-me o suor do rosto e da barriga, enquanto dizia: "Lembra-te que daqui a pouco estamos no mar em Aveiro!". Depois fazia o gesto com as mãos de quem nada bruços. Nem eu nem ela sabiamos nadar, mas pouco interessava. Era esse pensamento que nos fazia retirar com algum ânimo a rama da batata, ir buscar os baldes, meter as mãos na terra, encher as sacas. A minha irmã sonhava com a praia, o futuro, eu acho que pensava mais nas pausas para a bucha e na hora de ir embora.
Mas não eram dias imperfeitos. A terra mostrava-se fértil, convivíamos com os nossos tios e tias, que manuseavam a enxada com a mestria de uma vida inteira no campo. "Vergonha é não trabalhar", dizia um tio meu, já falecido, a quem só conheci roupa da lavoura, na maioria descosida e cheia de terra entranhada. A sua mulher, irmã do meu pai, de tanto vergar para trabalhar, foi deformando as costas. A enxada lançada com força à terra, a azeitona apanhada do chão, os balaios e os sacos da vindima levados às costas deram-lhe um novo desenho. Da tia Lurdes conheço outra roupa, além da usada no campo. Sempre que vai ao cemitério põe as suas vestes mais tristes. Toda de negro mostra à sociedade a saudade deixada pelos pais, a quem teve de cuidar até ao fim. Parte da sua força física e anímica pode dever-se ao vinho. O copito não podia faltar à mesa, nem na jorna. Como pensava que fazia bem à saúde, sempre que estava comigo, resolvia encher as rolhas das garrafas e dar-me as uvas fermentadas teria eu poucos anos de vida. Sorriem... pois, a sua atitude fez-me apreciar o vinho de Vila Nova de Tazem. Já com idade para ter juízo, nos dias da apanha da batata, ia ao garrafão beber às escondidas e, com dois ou três golos, ficava tonta e pronta para ir para casa dormir. Dizia à minha mãe que não me estava a sentir bem e lá ia carreiro acima, com a mão na testa e a engolir em seco, meter-me na cama. Aconteceu, pelo menos, duas vezes. Não sei se culpe a senhora ou se lhe agradeça...

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