domingo, 4 de janeiro de 2009

A saga dos professores




Nas últimas duas décadas, os professores passaram de mitos a alvos a abater. A carreira docente está pelas ruas da amargura e os professores não sabem o que fazer.
Vem esta conversa a propósito da imagem - real - que recebi hoje pela internet (ao lado). Faz-nos pensar no mundo em que estamos, de onde vimos e para onde vamos. Se o menino não quer ginástica, não faz e acabou!, pensam os pais que tomam uma posição determinada à custa da sua falta de paciência e de capacidade para dialogar com os filhos, submetendo-se à ditadura inflexível dos mais pequenos.
Longe vão os tempos (os meus, por exemplo) em que ter aulas de desporto era uma sonho. Aliás nunca realizado, porque nunca tive professor. Hoje creio que essas aulas me fizeram falta, porque não está a ser fácil adquirir hábitos de vida saudável. Eu, como menina aplicada que era, talvez interiorizasse que fazer exercício físico é fundamental para a saúde física e mental. De tal forma era aplicada que até me apaixonei por um professor, normalíssimo numa altura em que se pensava que os professores sabiam tudo e os miúdos, como eu, tinham a noção da responsabilidade, mas, sobretudo, gostavam de estudar. Não para tirar boas notas - também -, mas, acima de tudo pelo gosto pelo conhecimento.
Hoje em dia, as crianças mudaram. Não têm de lutar para obter o que quer que seja. Tudo lhes vem ter às mãos. Encho-me de perplexidade quando vejo que hoje os pais oferecem, no mínimo, 100 euros em prendas de Natal para os seus filhos. "Eles pediram. É uma forma também de compensar", ouço dizer. Eu compreendo, mas... Ainda há 20 anos atrás corri a chorar de revolta, porque queria 'uma prenda de desembrulhar", coisa que raramente tive em criança, se tive foi uma ou duas vezes, no máximo.
Perante miúdos que mascam chicletes, bebem álcool, não têm qualquer motivação para estudar, levantam-se 'n' vezes dos seus lugares, jogam computador nas aulas, mandam SMS e adoptam muitos outros comportamentos que nem faço ideia, porque felizmente não sou professora, os docentes vêem o seu quotidiano escolar, já de si muito difícil, cheio de novas exigências burocráticas.
Todos sabemos que há prof. e Professores, gente que dava umas coisas - como todos os meus professores de Matemática - e profissionais que preparavam as suas aulas com brio e que ainda tinham a capacidade de ensinar algo para a vida, em termos de formação pessoal. O primeiro grupo devia ser banido, o segundo não devia ser sujeito a mais trabalho...
Passámos do 8 para o 80, com todas as injustiças e contradições que isso acarreta. Vivemos uma época de mudança e só os que tiverem muito bom senso e boa formação podem seguir em frente, com sangue frio, calma e capacidade para resolução dos problemas, de forma equilibrada. Quem não tiver coragem pode vir a engrossar os valores já altos de professores em depressão. Aliás, os professores têm 20 por cento mais propensão para estados depressivos que o resto da população. Antes, invejava os professores, porque tinham um bom salário e muitas férias. Agora, agradeço estar fechada numa sala em frente a um computador, a escrever, sem ouvir a barulheira infernal dos garotos, a maior parte com falta de educação e infinitamente cruéis para com os colegas e professores.
Mesmo assim, amanhã não me apetece ir trabalhar. Posso ficar em casa? Mas recebo o salário à mesma, ok?

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