quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O início

É preciso respirar bem fundo para começar. Tirar o casaco, sossegar uns segundos, estender os dedos e escrever. Vou esperar pela explosão? Ela virá? Será que os sentimentos vão explodir numa erupção vulcânica cuja lava vai aquecer e ceifar vidas, não pela destruição, mas pelo desgosto?
Ou será que tudo vai sair miudinho, como um fio de água numa nascente?
Veremos. Por ora, vou escrevendo umas letrinhas atrás das outras.
"Queria um pão de quartos", pedi eu ontem numa padaria. Pareciam mesmo um pão de quartos aqueles paezinhos no cesto de verga naquela padaria e a minha vontade era tanta que assim fosse que pedi logo um pão de quartos, antes de perguntar que tipo de pão era aquele. Não era um pão de quartos, era parecido, mas mesmo assim comprei dois pães, para fazer a forma do pão de quartos que se vendia na padaria da Sra Micas ao fundo da recta onde estava instalada a casa dos meus avós maternos, que viu nascer e crescer gerações.
Foi para lá que os meus pais voltaram depois da diáspora em terras de Angola, vindos à força. De uma vida mais ou menos estável, saltaram para dias preenchidos de sacrifícios.
Que saudades daquele pão. Quer dizer, não era bem do pão. Era mais da voz da minha mãe a pedir-me para ir buscar o pão. Era o gosto de a ver com o pão e podermos lanchar um pão com manteiga e chá. É do momento que eu tenho saudades, o pão é só um pormenor. Faltam todos os outros. A mesa da cozinha, a Mizé nos intervalos da costura, a mãe sentada num banco pequeno de madeira, o coador que nunca se encontrava na gaveta do talher, os pijamas, a falta de vontade de sair de casa, o ambiente de férias das aulas, as conversas, as lágrimas, a estima, a ternura, o conforto emocional, qual cobertor de flanela. Eu queria, passados mais de 15 anos, trazer à minha realidade aquele momento que é, eu sei, irrepetível. Obrigada, Deus, por ele, ao menos, ter existido.
A minha infância não foi cor-de-rosa, nem negra. Teve um cinzentão que foi entrando por mim adentro. Ainda hoje retirar esse cinzento é uma tarefa muito difícil. O rosto fica sisudo, hirto, as sobrancelhas franzidas, o olhar esgazeado. A cabeça cabisbaixa. Quando estou cinzenta não estou cá, estou só em mim, vagueio por mim, a realidade é difusa e desfocada.
Tudo começou na barriga da minha mãe. Ela já tinha tido seis filhos (embora um tivesse morrido) e estava de novo grávida. Talvez eu no lugar dela tivesse chorado o dobro e enchido a aldeia do meu desgosto. Ela definitivamente não
queria ter mais filhos. Tendo nos braços uma menina de meses, quem gostaria de saber que estava de novo de esperanças? E a sociedade, a vergonha?
Não me digas que estás outras vez grávida?, perguntou-lhe, a certa altura, uma vizinha que, vendo-a triste, a questionou. Ela assentiu e a choradeira molhou olhos, rosto, camisola, saia até atingir a combinação e, inevitavelmente, a pele. Eu lá dentro, ainda senti decerto a humidade da tristeza e, além de hoje ser macambúzia, também choro muito. Pois é, a barriga cresceu, mas como toda ela era gordura, não se notava muito. Mas aos nove meses, já lhe perguntavam se estava grávida, ao que ela respondia: "não, é das cerejas".
Por seu lado, a enfermeira, que viu a minha mãe quando se dirigiu ao hospital para dar à luz, ficou meia amarela, quando lhe respondeu que ia ter um filho a esta simples pergunta: a senhora vem doente? "Não, venho para ter um filho...". Se calhar, para aquela enfermeira, a minha mãe só tinha comido umas cerejas a mais!
A paciência era pouca e as dores muitas. Eu ainda não queria nascer (claro, eu estou sempre atrasada) e a minha mãe pediu uma injecção, se não deitava-se pela janela abaixo. Ainda nasci antes de almoço, pois a minha mãe ainda comeu uma feijoada. Todos os anos até aos 22 (idade que eu tinha quando a minha mãe partiu), ela repetia a história do meu nascimento no dia do meu aniversário. Sem esquecer aquela parte em que uma senhora de Vila Velha de Ródão lhe pediu a menina tão bonita que ela tinha nos braços. "Eu enchi-me de força, agarrei em ti, meti-me num táxi e cheguei a casa. Ninguém contava contigo. Foi uma festa", contou-me ela depois. Talvez quisesse transmitir-me alguma coragem para a vida, com o testemunho da sua atitude, mas ela falta-me todos os dias.

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