quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Doutores e engenheiros

"Daqui fala o Dr.... A Antónia está?", perguntam ao telefone. "Não, não, não está...", respondo. "Diga quando chegar, por favor, que telefonou o Dr...". "Com certeza", replico e desligo, a deitar fumo pelas ventas e a pensar que já me estragaram o dia.
"Estes indígenas auto intitulam-se doutores como se tivessem nascido já com o afixo. Como se deixassem de ser os "Antónios", os "Joões" e os "Maneis" e passassem a ganhar um novo nome, no entanto sem registo na conservatória", penso e continuo: "isto não é só ao telefone". Ainda outro dia estava em serviço e perguntei o nome à pessoa com quem estava a falar. Foi assim. "Desculpe, como se chama?" "Eng. Pestana, e você?" "Eu respondi: Maria João". É o meu nome. Os outros podem-me tratar de outra maneira, com o tal afixo, mas eu sobre mim, nunca jamais em tempo algum porei a dra. atrás. Que falta de "savoir faire", que coisa estranha, em que mundo vivemos nós.
Mas, não é só. Quando estes senhores têm a infelicidade de partir, os anúncios de agradecimento nos jornais enchem-me novamente de revolta: "Morreu o Dr. Anastácio".... "Mas que raio, até na morte se é doutor". Sempre pensei que eram as pessoas que morriam. Mas não, são os doutores e os engenheiros. Até parece que o nome - quando efectivamente se tem nome na sociedade - não vale tudo... lembro que até nas sepulturas é frequente a alusão aos drs. Recordo, a este propósito, a sepultura simples, mas de um peso enorme, que José Maria Eça de Queiroz (o grande Eça da literatura portuguesa) tem num cemitério pequeno, em Tormes. Figura ímpar no domínio das letras, cujo nome está acima de todos os sss e rrr, doutores e engenheiros. Eu que pensei que o grande Eça estava em Paris, quando me deparei com a sua sepultura na localidade onde está a fundação Eça de Queirós, no alto de uma serra, no Douro. Um sítio quase ermo, junto a umas vinhas, onde não passam táxis, onde não há casa. Um local que Eça herdou pela parte da esposa e onde teve de chegar montado num burro. Conta-se a grande desilusão que foi para o diplomata chegar àquelas serranias, quando a sua mente tinha imaginado outro conforto e mordomia. No entanto, foi essa experiência que lhe serviu para escrever a obra "A Cidade e as Serras". Sempre valeu a pena... Eça de Queirós era um senhor dr. e foi sepultado como mero homem.

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