quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Presépios originais

Se fosse adulta há 34 anos atrás...decerto que gostaria imenso do presépio do Natal de Vila Nova de Tazem, naquele mítico ano de 1977, aquele em que nasci. Ora vejamos:

- "Ó mãe, que beleza é o Menino Jesus do presépio vivo que está à frente da Igreja. Tão gordinho, rechonchudo, pena não ter uma máquina fotográfica para tirar uma fotografia", contava a Emília à mãe, enquanto preparavam ambas o almoço.
- "já sei o que queres filha. Queres que vá ver o menino. Está bem, quando formos visitar a tia passamos por lá...."

A Emília ficou satisfeita.

Conforme combinado, após o almoço, foram ver a criança. Estavam a admirar o menino, a comentar a maneira sossegada como se comportava, quando o insólito aconteceu, deixando as duas surpresas. Uma mulher, já com os seus quarenta e tal anos, foi mexer nas palhinhas, sem pedir autorização, tirou o menino e espreitou-lhe a fralda.

- "Olha deve ser a mãe do Menino Jesus", comentou a Emília.
- "Pois deve ser...". "Este menino tem de ter uma mãe sem ser a Virgem Maria, não achas Emília?", tentou consciencializar a mãe.
- "Mas deve estar muito orgulhosa do seu filho ser o Jesus do presépio", comentou ainda a Emília.

Emília e a mãe aproximaram-se daquela que consideraram ser a mãe da criança. Esta trabalhava sem demora para mudar a fralda ao bebé, para o repor no seu papel sério e responsável de Menino Jesus.
Aproximaram-se cheias de ternura para ver melhor os refegos. E, aguardando por uma minhoquinha a despontar entre as pernas, Emília e a mãe confrontaram-se com uma dura realidade.

- "Mas é uma menina!!!!! O Menino Jesus é uma Menina Jesus! Como pode ser, enganou-nos a todos a miúda!", - disse a Emília, surpreendida.
Enquanto isso, a mãe de Emília ria e a mãe da Menina Jesus sorria, num misto de satisfação e embaraço.


Esta é uma ficção daquilo que poderia ter acontecido quando eu representei pela primeira vez. Depois deste ensaio (do qual guardo saudosas recordações) fiz de Maria Madalena para um teatro da escola e ainda de anjo, já não me lembro para que peça. Onde é que isto vai parar? Hum. Mau presságio...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Vale a pena

A mensagem principal que retirei de um dos últimos livros que li foi que a escrita de livros não tem outra recompensa que não a alegria e o prazer de o escrever. Outros incentivos ligados à retirada de dividendos ou ao reconhecimento social não passam de quimeras, podem surgir, mas a muito longo prazo. O livro a que me refiro chama-se "Cartas a um jovem romancista" de Llosa, que me foi sugerido por uma das pessoas que se tornou seguidora deste blogue.
Portanto, obrigada Cláudia.

Assim, parece ter-se dado um processo de libertação, muito difícil de explicar, mas que se pode resumir numa ação, que espero se venha a exprimir muitas e muitas vezes: escrever, escrever, escrever.
O querer escrever de forma inédita tem-me, reconheço-o agora, impedido de escrever livremente. O medo de errar e a ideia do perfecionismo têm-me emperrado os dedos e a mente. Por isso, mesmo que não seja bonito, ou inovador, aqui vai disto. Fica a intenção, a vontade, a necessidade de viver um sonho antigo e de o tornar realidade.
Sim, sonho publicar um livro. E admiro muito as pessoas que realizam os seus sonhos! E quero admirar-me, ha ha ha!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A praça para onde vim parar

Trabalho no mesmo jornal há quase onze anos. Neste tempo, a minha secretária mudou de lugar uma vez e já tive um computador novo, maravilhoso, de facto.
De resto, tudo se manteve, até a paisagem do lado de fora da janela. Árvores, cujas folhas vão mudando de tonalidade à medida que os meses passam, estão intactas. Vêem-se as janelas superiores dos prédios mesmo em frente e ainda um poste de electricidade. Não vejo, mas imagino – porque sei que lá está – uma praça velha em calçada, uma Igreja de onde sai em procissão Nossa Senhora da Piedade, a padroeira do concelho onde estou, cujo calendário de festas determina viagens de emigrantes. Não raro se veem os olhos húmidos de quem vem e olha o andor magistral da mãe com o filho ao colo, já morto. Tudo naquele andor, a dor da perda, a dor da saudade, a dor maternal de quem acaba de perder o seu filho muito amado.
Da rua, ouve-se o ruído dos carros, os telefonemas do sector de desenvolvimento social da Câmara Municipal, os carimbos dos correios e o folhear dos livros à venda. O choro impaciente das crianças à espera de vez, as máquinas de café a deitar líquido castanho para manter abertos os olhos dos trabalhadores, a conversa dos taxistas à espera do cliente que tarda, a inquietude do ourives que não vende, o pequeno mercado - com a vendedora a fazer renda - que às vezes abre outras não, o talho onde nunca entrei. Apesar de tantos anos volvidos, ainda se sente o contentamento do homem da leitaria que certa vez viu a sorte. Vinha alegre e deu-lhe para a mão alguns milhares de contos do Totoloto.
Os cheiros às vezes são de terra molhada, outros da secura que se levanta do chão, dos ácidos expelidos da casa-de-banho pública onde fui uma vez e me arrependi. Bom, bom era o alo dos velhos petiscos que se fritavam no óleo usado do “Ri-Te, Ri-Te”. Local sujo, mal frequentado, mas onde comia por 400 escudos arroz, ovo estrelado, costeleta, nos meus primeiros anos de Trevim. A casa abriu nas mãos de gente que nem uma cerveja sabia tirar e nos primeiros dias, claro, eram a troça dos clientes. Como só respondiam, “Ri-te, Ri-te”, lá ficou o nome. Hoje saiu toda a imundice e lá está uma pastelaria, com pão quente, sopas, hambúrgueres, jornais, decoração. É fina, mas não consegue ser tão chic como a casa de chá em frente. Uma verdadeira sala de visitas, onde se vendem infusões raras e se comem doces caseiros, quishes e outras novidades que esta praça nunca poderia imaginar que um dia iria presenciar. Sim, antes de ser o que hoje é, aquele local era impróprio para uma senhora entrar. Não chegava a ser taberna, era muito menos que isso.
Em relação ao tacto, só referencio aqueles cinco euros que pude um dia apanhar do chão e que bem me souberam nas mãos. Ainda olhei para os lados, a ver se alguém me vigiava, mas não. Podia fugir à vontade com a minha pequena fortuna, com a qual ainda paguei uns cafés aos colegas. Um acto raro, mas, enfim, era dia de festa!
Por isso, dos cinco sentidos é o paladar que mais se refastela nesta praça para onde vim parar. Graças ao investimento alheio, se não, creio que pouco se salvava. Talvez a Igreja, que é lugar santo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O pequeno maestro

Era a hora do conto em casa da avó Maria. Sempre que a Joana, a Rita e a Raquel passavam as férias na casa de campo, na companhia da avó, o pôr-do-sol era a altura escolhida para ouvir as mil e uma histórias que ela sabia de cor.
Depois das três meninas brincarem à apanhada entre o arvoredo da quinta, prepararam-se sentadinhas no balcão das escadas de pedra da casa para ouvirem a voz melodiosa da mulher de 70 anos, que a vida enrugou, mas que dotou também de ternura e paciência. Agora na reforma de uma vida na cidade, não lhe faltava tempo para dedicar aos netos a atenção que não teve a oportunidade de dar aos filhos.
A voz naquele dia estava de tal forma melodiosa e suave (provavelmente açucarada com o delicioso doce de abóbora que acabara de fazer) que as crianças até comentaram que a avó parecia o violino que ouviram durante a tarde e que tinham combinado, entre as três, aventurarem-se, no dia seguinte, a procurar os dedos que tocavam semelhante música.
A avó aproveitou a deixa e começou a contar uma história de um violino, de um violino gigante e mágico.
Os olhitos das três crianças arregalaram-se ao imaginar um violino muito maior do que a sua estatura e a pesar três vezes mais. Mas o que mais as impressionou foi o facto de ser um violino… falador.
"Pedro tinha quatro anos quando recebeu o violino para brincar com ele. Era em tudo semelhante aos outros, só era muito maior. A criança ficou feliz por ter algo diferente para mostrar aos amigos e também porque, assim, poderia aprender música, um sonho que acalentava desde que nascera", contava Maria.
O quarto do Pedro ficou ainda mais enriquecido. O espaço já estava enfeitado com bonecos de pelúcia, jogos para o computador, aparelhagem, televisão, tudo. Agora, no entanto, tinha algo muito mais especial do que o resto. Tinha um violino gigante.
O tio Osório, que lho oferecera, só conseguiu encontrar tal raridade em Inglaterra, o que para Pedro ainda era mais emocionante. Os pais deste não acharam grande utilidade àquele grande objecto, mas assentiram mesmo assim em colocá-lo no quarto do pequeno.
"Certa noite, Pedro dormia tranquilamente quando começou a ouvir uma voz a chamar por ele. Quanto mais ouvia, mais se embalava no sono e sonhava com paisagens rurais, com jardins, borboletas, flores campestres, passarinhos, um cenário onde gostaria mais de viver do que na cidade que não lhe possibilitava andar ao ar livre".
Entretanto, o violino não só ganha voz, como abre os braços e estende as pernas. Sem acordar Pedro, pega nele ao colo, coloca-o nas suas costas e lança-se pela janela a voar. Foi só com o vento a bater-lhe no rosto que Pedro acordou do sonho bom que estava a ter. Atrapalhou-se de tal forma quando reparou que estava a sobrevoar o céu que se agarrou às cordas do violino para não cair sozinho na noite escura.
"Estás bem?", perguntou o violino. Pedro não conseguia falar, só olhava fascinado para tudo. Entrou no Carnegie Hall, em Nova Iorque, no Royal Albert Hall, em Inglaterra, no Opera, em Paris, no Teatro Nacional de São Carlos, em Portugal e em tantos outros locais de elite, em menos de vinte minutos.
A última imagem que o violino lhe mostrou foi a de um maestro com duas batutas a orientar uma orquestra de passarinhos. "Este és tu no futuro. Vais ser um maestro de grandes óperas, vais encher as salas que viste esta noite comigo, mas o teu passatempo favorito vai ser pegar nas tuas batutas e andares pelo campo, perto das coisas simples da vida a compor as tuas músicas".
A viagem tinha terminado. Pedro e o violino regressaram ao quarto e a criança acordou de manhã cheia de energia. Tinha a certeza que seria músico um dia...
"Avó, achas que é ele que toca o violino que nós ouvimos hoje à tarde", perguntou a Joana, entusiasmada.
"Quem sabe, querida", respondeu Maria, com um sorrisinho maroto. Ela sabia que não podia ser, mas ficava feliz por as suas netas estarem a viver uma infância cheia de fantasias.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

AUSCHWITZ, local esquecido pelo sol


"Camaratas" em Birkenau. Em cada camada do beliche tinham de caber 10 pessoas


Latrinas em Auschwitz-Birkenau. A sua limpeza era considerada um trabalho leve, porque os alemães mantinham-se longe do cheiro e das possíveis doenças


AUSCHWITZ, local esquecido pelo sol

Auschwitz não tem alma. Só lama, frio e imagens grotescas para quem conhece as palavras liberdade e conforto. No sul da Polónia, o local que foi durante a II Guerra Mundial (1939-1944) sítio de tortura, fome e morte de judeus, ciganos, homossexuais, presos de guerra, intelectuais polacos, tornou-se num museu para onde rumam milhares de visitantes por dia. Organizam-se os grupos, os guias (o museu tem mais de 200, entre eles um português), preparam-se os auscultadores, o rádio de comunicação e começam as nossas três horas de visita, no dia 29 de setembro.
Os rostos ganham perplexidade à medida que a realidade das pessoas deportadas para aquele campo de concentração começa a ser explicada e as imagens entram pelos nossos olhos adentro. Foram transportados para o campo judeus vindos da Hungria, França, Holanda, Grécia, Eslováquia, Bélgica, Áustria, Alemanha, Jugoslávia, Itália, Noruega. Relatos de sobreviventes dos campos de concentração nazis contam que, à medida que os dias avançavam, os prisioneiros perdiam a noção de identidade como seres humanos. Para começar, a viagem era, no mínimo, traumatizante. Da casa, de onde eram arrancados de forma brutal e com pouco tempo para fazerem as malas, os "escolhidos" eram levados para comboios de transporte de gado. Os vagões não eram abertos, nem era distribuída água ou comida. As viagens podiam demorar horas ou vários dias. Quem sobrevivesse e entrasse no campo ficava logo despojado de toda a documentação, roupa e bagagem, passando a ser identificado apenas por um número gravado no corpo. Também lhes era rapado o cabelo. Vestiam depois umas calças e uma camisa às riscas e assim tinham de enfrentar a neve. Muitos trabalhadores eram sujeitos a trabalhos esforçados, laborando em fábricas de derivados de petróleo, armas, ou construindo outros campos (como o caso de Birkenau, a três quilómetros do campo mãe de Auschwitz). Na generalidade, todos os deportados iam perdendo o brilho dos olhos, o corpo enfraquecia pelo esforço do trabalho, pela fome, pela doença, pelos maus-tratos e também pelas lutas entre si por caldo ou mais um pouco de pão. A comida, além de ser insuficiente, era sempre do mesmo tipo e pouco calórica.
Sessenta e seis anos depois dos acontecimentos, ainda são conservadas as "provas do crime". Os edifícios contêm hoje objetos pessoais dos prisioneiros que não foram roubados nem destruídos: óculos, malas (ainda com o nome das pessoas), sapatos, próteses, alguma roupa de criança. As jóias não chegaram aos dias de hoje...Uma sala conserva ainda duas toneladas de cabelo que, segundo foi dito, era destinado a fábricas de produção de têxteis. Uma vitrine mostra tranças ainda por desfazer. Entre os blocos 10 e 11 encontra-se o "muro da morte", onde eram executados os desobedientes. O bloco 11 é difícil de visitar. Na cave foram construídas as celas para aqueles que eram predestinados à morte por asfixia, fome ou falta de luz. Na cela por morte de fome, está a vela que o papa João Paulo II, de origem polaca, ofereceu em memória do padre católico Maximillian Kolbe que foi prisioneiro em Auschwitz, voluntariando-se para morrer em lugar de outro prisioneiro. O padre foi canonizado pelo papa em 1982, na presença de Franciszek Gajowniczek, o homem cujo lugar o padre tomou e que sobreviveu aos horrores do campo.
Em Auschwitz, a câmara de gás e o crematório são os últimos lugares a visitar. Pede-se silêncio. A câmara de gás parece demasiado pequena para ter albergado centenas de pessoas que morreram ao mesmo tempo por ação do gás Zyklon B. Um espaço onde se concentraram todas as expetativas em termos de visita e, naquele momento, não há tempo para definir os sentimentos. Confundem-se. A visita é rápida, saímos. Mas as imagens e a incompreensão hão-de ficar, bem como uma maior valorização da vida.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Hoje, conto-vos um conto

O sábio da floresta

As nuvens do céu e a linha do firmamento estavam sempre no pensamento de Tiago, que era o mais distraído da turma do 5ºD. Encostado a uma das janelas da sala de aula, passava horas a sonhar acordado com possíveis aventuras com os amigos, desde cambalhotas em colchões de algodão a corridas de bicicleta no espaço com fatos de astronauta. Como se costuma dizer, Tiago estava sempre "na lua" e os professores alertavam-no para esse comportamento. Mas, por muito que se esforçasse por olhar para o quadro e copiar o que lá estava escrito, sem se dar por isso, já via as letras a saltarem e a dançarem com ele um corridinho que o faziam sair dali para a sombra de um coqueiro, ao som de merengue na República Dominicana.
Era assim a cabeça de Tiago. Cheia, plena de imaginação, de sítios a explorar, de desejos por realizar. Claro que a mãe Ermelinda conhecia esta característica da personalidade de Tiago e já dizia para si própria e para os vizinhos: "Não é defeito, é feitio".
Num feriado, Tiago aproveitou uma saída rápida da mãe para ir conhecer, finalmente, o bosque que rodeava a sua casa e no qual já tinha imaginado mil e uma figuras estranhas, bizarras, com quem queria até travar amizade. Chegou ao bosque devagar, mas como não tinha muito tempo, ficou-se pela entrada, de onde só pôde ver algumas borboletas, uma ou outra abelha, nada de muito assustador, nem interessante. Regressou a casa desiludido, mas disposto a entrar mais a fundo no arvoredo, assim que tivesse outra oportunidade.
Não pôde esperar pela melhor ocasião. Desde que chegou a casa que uma sensação forte o empurrava de novo para a floresta. Era uma voz interior, uma espécie de chamamento que o impelia a regressar. Mesmo em pijama, só com um casaco de fato de treino, saiu de casa pelo telhado e embrenhou-se na escuridão. Não tinha medo. Estava muito curioso com as aventuras que podia estar prestes a viver. O som que o chamava tornava-se cada vez mais forte e quanto mais andava, mais espessa ficava a floresta, mais intensos os cheiros e os grunhidos dos animais. Apesar de só conseguir ver aquilo que a luz da lua lhe permitia, estava encantado com toda a envolvência da paisagem. Não sabia para onde estava a ser guiado por algo invisível, mas estava a gostar. Até que, sem saber como, foi ter junto a um castanheiro centenário. Era uma árvore enorme, com várias crateras, que parecia servirem de toca a alguns animais. Cheio de curiosidade, meteu a mão numa dessas aberturas e tocou numa pequena bola, que parecia um berlinde. Agarrou-o na mão com força e tirou-o.
Vendo-se livre de cem anos de escravidão, o berlinde começou aos saltos, rodeando o corpo e a cabeça de Tiago de tal forma que este ficou completamente baralhado. Quando levantou a cabeça, deparou com um ser verde, com antenas, orelhas enormes e pontiagudas, olhos miudinhos e uma boca completamente desdentada. Era um ser estranho, mas um ser que ele queria conhecer.
- Olá Tiago, eu sei o teu nome, porque eu vejo tudo o que se passa no mundo, sei que sonhas acordado, conheço a tua família e os teus amigos. Puseram-me aqui porque sabia todos os segredos da humanidade e consideravam-me perigoso. Tu que me libertaste, podes-me fazer uma pergunta, mas só uma, sobre o mundo que nos rodeia. Eu sou um sábio...
Tiago olhou para a figura e pensou em mil e uma questões possíveis: quantas estrelas há no céu, o que há além das nuvens, quantos cabelos os seres humanos têm na cabeça, mas tinha de ser esperto para fazer uma pergunta, cuja resposta lhe fosse útil para a sua vida. Depois de pensar muito, decidiu-se por uma.
- Sábio, o que é que eu venho fazer à terra?
- Como, o que vens fazer à terra?
- Sim, o que venho fazer à terra!
O sábio tossiu, engasgou-se, já não era verde, tinha ficado roxo. Um menino tão pequeno tinha-lhe feito uma pergunta à qual ele não sabia responder. Ele não previa o futuro, só sabia o passado e o presente. Face ao silêncio do sábio, Tiago adiantou a conversa.
- Sabes, eu gostava de voar, mas não tenho asas. Gostava de viajar muito, mas não tenho idade, nem dinheiro. Depois, sou obrigado a ir à escola aprender, mas eu preferia aprender de outra maneira. Queria que falássemos sobre o Egipto e, num toque de mágica, entrássemos nas pirâmides e pudéssemos ver, tocar. Assim, não sou muito feliz - disse, entristecido.
O sábio, que tinha uma vez lido num livro que "o caminho se faz caminhando" disse ao menino que só ele próprio podia responder a essa questão, procurando, experimentando, vivendo com intensidade, descobrindo, a cada passo, o mais fundo do seu ser e o trajecto da sua própria felicidade.
Tiago não percebeu muito bem a resposta, mas talvez um dia compreendesse. Regressou a casa a pensar naquela figura tão pitoresca que ficou presa numa árvore tantos anos. O sábio, por seu lado, deixou-se ficar na floresta, para aprender ainda mais sobre a humanidade, porque, afinal, ainda tinha muito para conhecer, sobretudo sobre as crianças. Na sua oração, agradeceu ao Tiago a libertação e a lição de vida.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O feitiço



"O amor não é contemplarmo-nos um ao outro, mas olharmos juntos na mesma direcção"

Seguidores